Quando o depois não se avista...
é porque o início regressa, no ciclo infindável e incessante dos dias...

O Kafkiano prolonga as suas asas em...
Água da Lua
www.agualua.blogspot.com
Terça-feira, Dezembro 11, 2007
Segunda-feira, Agosto 06, 2007

de: http://photoblog.dralzheimer.stylesyndication.de/
Recordo a caneta, a tinta e o papel...
a nuvem desfeita e semi-palpável
o algodão e a sensação
Em breves instantes,
em breves escassos segundos
irrecordável no passo seguinte.
As palavras ficaram noutro caderno.
Procuro-lhe incessantemente as páginas.
Terça-feira, Maio 01, 2007
ReenCARNaçãoDeixam-se as fitas de luz incendiar as entranhas
Como se fossem partículas e não mecanismos de carne
Como se as palavras se percebessem meramente por serem palavras
E não resultado de realidade dividida e partilhada
A renovação surge como nova ( a palavra indica )
Contudo, apenas podridão... renascimento ou reencarnação.
A carne já é carne há muito tempo.
Imagem: "Visceral Landscapes", J.M. Culver
Sexta-feira, Janeiro 19, 2007
Domingo, Setembro 03, 2006
Janela para Fora
As pálpebras ficaram mais pesadas como se fossem puxadas pelo sol que insistia em descair na direcção do horizonte. E com eles, todo o corpo que vergava mais um pouco na direcção da janela. O sono vencia, as pálpebras desciam. Mas ainda a tempo de, com a inclinação, conseguir ver mais um pouco do outro lado da janela, e os homens que se afastavam com as enxadas nas mãos, depois de semearem mais um corpo. Lembra-se ainda de ver as mulheres de negro junto ao chão da terra revolta em esgar de dor. E a mulher à janela preferiu adormecer. Preferiu sonhar e amanhã continuar a imaginar, a inventar músicas indecifráveis da realidade que não o era. A mulher inventava, porque não compreendia. Não compreendia como se podia morrer como se nunca se tivesse vivido.
Quinta-feira, Agosto 24, 2006
Esquecimentos
Esqueci o sonho, o relâmpago, o trovão,
a chuva, o vento assobiante até mais não.
Esqueci o sol, o vento, os passos,
as lutas por dentro, as letras em laços.
Esqueci o prazer, a viola, a melodia,
e também o sempre eterno presente que se adia.
Numerosas noites adormeci sem pensar
que a Alma e o dentro poderiam perdurar.
Assim esqueci tudo aquilo que me rodeia
Fugindo, perspicaz, à complexidade de uma teia.
Esqueci hoje o dia, esqueci-me de olhar.
Esqueci de escrever, esqueci de respirar.
E assim, aflita, para que continuasse a viver
Foi preciso que chegasses e não me fizesses esquecer.
Sábado, Agosto 19, 2006
Olho para os pés... a curva acentuada, filha dos passos desnecessários que persistem na memória, torna-os curvos e esguios, conferindo-lhes um aspecto quase frágil. É aqui que persisto, que a luta contra a gravidade se torna a luta incessável dos dias que morrem em fila, ordenados. Olho os pés como quem olha uma escultura. A forma da carne, dada pela maneira como se veste nos ossos, parece esculpida por uma história de passos. Os que foram dados, e tantos que ficaram por dar. Contemplo. É quase como se o olhar pudesse quebrar tanta fragilidade... E no entanto é a fragilidade que segura e suporta, a fragilidade de um pilar. Gostarias de aparentar fragilidade e, ainda assim, ser pilar?...
Quarta-feira, Julho 26, 2006
Ritmos
Há quanto tempo não ouvia a música. E agora soltava-se por entre os cabelos e sentia as notas cravadas no coração aberto. Não o coração aberto metafórico, mas sim o coração aberto visceral. Com muito sangue e pausas de dor. Por isso é que as pausas têm tempo. Por se poderem transformar numa solidão interior, num eterno e ritmado dilacerar da carne rasgada.
Dantes a música ía e vinha... ía e vinha... Até que um dia foi, e o caminho enrolou-se atrás da última pegada. Agora não era um mero ondular, não era suave. A música chegava violentamente, atacando o corpo despido de qualquer defesa, que a cada nota, a cada som, a cada timbre, se entregava, sem se importar em saber qual seria o toque final. E o toque final não vinha. E o corpo quase terminava antes da música, em luta com o ritmo, em cópula com a vibração do som.
A música chegava agora de modo insuportável. Sobrepunha-se aos gritos mudos. Até que agarrou a cabeça com força, rodou sobre si mesmo em esgar de dor, e arrancou, finalmente as orelhas.
Quinta-feira, Abril 13, 2006
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"O Prazer da Síntese
Ao fim de três anos o pintor chegou novamente ao palácio e, em frente do Imperador, em alguns segundos, com traço firme e sem levantar o pincel, pintou uma borboleta, tão bonita que nunca o Império tinha visto outra igual. O Imperador, contente, mas surpreendido, perguntou ao pintor para que tinham servido os seis anos se ele fora capaz de pintar a borboleta em alguns segundos. O pintor respondeu que foram os seis anos de conforto e reflexão que tinham permitido a síntese, em alguns segundos, de uma multiplicidade de gestos.
[...]"
Alfredo Saramago, in Os Prazeres de Alfredo Saramago

G.Mertens
Domingo, Fevereiro 12, 2006
Já lhe tinham dito várias vezes que quando uma porta se fecha, outra mais adiante se abre (há também a versão da janela). Mesmo assim, era difícil manter-se quieto e em silêncio perante a enormidade, o peso e a solidão de uma porta fechada. Com muitas chaves. Sete, talvez. Também já alguém comentara, de passagem, enquanto continuava com o olhar fixo na madeira que não faz ricochete, que para encontrar uma nova porta aberta, havia que aceitar a solidez da porta fechada e andar um pouco mais à frente no corredor... Apesar dos conselhos sábios dos eternos buscadores de uma saída, o rapaz continuava olhando aquela entrada interdita. Uma coisa era certa - os seus olhos não eram olhos de quem via madeira. Não. Os seus olhos eram olhos de quem via lindas cores, fabulosas matizes, criadas pelas pinceladas da esperança mas também do medo. Com medo paralisara. E só esboçou alguns breves movimentos quando deu por si a esboçar largos riscos de tinta, com as cores do arco-íris, na pesada porta, que era de todas as cores, de muitos bateres de coração, mas que já não era de madeira.


