O Homem que Vivia numa Roda
Xavier estava cansado. A sua roda parecia andar depressa demais. Sentia-se cansado e sem forças, mesmo exausto quando, chegado a casa, se sentou no sofá. Ainda assim continuando a "pedalar" na sua roda. No entanto, embora naquele dia lhe parecesse mais pesada, esta andava tão depressa quanto a de todos os outros.
Observando de fora, a roda em que todos caminhavam, dia após dia, fazia lembrar as que entretêm os hamsters nas suas gaiolas. Com a diferença que a de Xavier, tal como a de todos os outros, não era uma opção. Rodava sem parar, sempre em direcção única, sem nunca voltar atrás, debaixo de chuva ou de sol, fizesse frio ou calor, estivesse Xavier mais ou menos cansado. A sua vida era precisamente fazer tudo o que todos fazem desde o nascimento até à morte, andando sem parar, na roda gigante. Na verdade, alternativa não existia já que não havia maneira de fazer parar este mecanismo que por vezes parecia monstruoso a este homem. Mecanismo que tinha tanto de curioso como de banal. A rotina tornara-o curriqueiro, mas não deixava de ser intrigante para os que sobre ele reflectiam. Certo dia, Xavier, um pouco cansado de não olhar muito para além da sua própria roda, contiuando a efectuar os mesmos mecânicos passos, dispensou algum tempo para observar as dos outros. E nisto pôde reparar que todas as rodas tinham o mesmo tamanho e andavam precisamente à mesma velocidade. No entanto, nem todas as pessoas caminhavam com a mesma facilidade. Realmente havia quem caminhasse aos empurrões, quem andasse ao sabor do vento, quem rastejasse e mesmo quem corresse. Alguns pareciam relativamente descansados, sonhadores até, não reparando sequer que a roda girava, outros pareciam exaustos carregando objectos e ideias amarrados à roda, tornando-a demasiado pesada para os seus magros corpos.
Xavier não tinha opção senão caminhar dentro da roda. É um facto que poderia sair dela, mas mais nada faria. Assim, dentro da não opção, apercebeu-se por momentos que poderia ter opção. Então olhou bem para a sua roda, depois olhou para as suas pernas, idealizou o ritmo a que teria de andar; antes de retomar desamarrou alguns objectos inúteis das grades da sua roda. Sentiu-a mais leve e, pelo caminho, plantou algumas flores para poder contemplar a sua beleza e sentir o seu cheiro à medida que caminhava.

"Hamster Wheel", Nancy Settle